Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006

Ruivães nas Invasões Francesas III

A Ponte da Misarela

É numa paisagem estranha, no fundo de um desfiladeiro rasgado no flanco da Serra da Cabreira, entre escarpas medonhas, bravias e solitárias que se ergue a inesperada Ponte da Misarela!

Com o seu tabuleiro lajeado, estendido a cerca de 30 metros e dobrado sobre o fecho de um único arco de 12 metros de altura, a sua idade vem da sombra dos tempos e a crença popular afirma que na sua origem está um pacto maldito firmado entre um padre

e o próprio Diabo.

Por debaixo de si, escumando e despedaçando-se contra a penedia abrupta, passa o Rabagão, grosso no Inverno e no Estio enfiado, a caminho do Cávado.

Entrincheirados na margem direita, guardando a ponte, cuja passagem estava barrada por pesados obstáculos, estavam cerca de 400 homens, comandados pelo Sargento-Mor José Maria de Miranda de Magalhães e Meneses, filho do Capitão-Mor de Ruivães.

Mandado na véspera para a Misarela, por seu pai, com a incumbência de cortar a ponte e efectuar a sua defesa, o José de Miranda não conseguira convencer a maior parte dos seus homens, naturais dali da região, da absoluta conveniência em cortar o arco da ponte.

Como haviam de passar o rio com as suas colheitas ou os seus gados? Como passar para irem à feira ou a Ruivães, quando as águas fossem grossas? Para mais o que era necessário era pôr fora da nossa Terra os franceses! Para quê cortar-lhes a passagem para a fronteira? Quem fez a Ponte de Misarela não nos faz outra como ela!, e nada deste mundo demoveu os rijos e casmurros montanheses a deixar cortar a sua Ponte.

Consentiram em que fossem derrubadas as guardas o atulhado o tabuleiro com troncos, penedos e obstáculos de toda a ordem, mas não mais do que isso.

Impotente, o Sargento-Mor dispôs as suas forças pelas escarpas que dominavam a passagem, abrigadas atrás da penedia e dos robustos castanheiros e carvalhos que ali cresciam.

A meio da manhã foram avistados os primeiros militares inimigos avançando rapidamente para o Rabagão; eram urna longa fila, interminável, de homens e animais, fatigados, que marchavam para norte acossados, mas que a fome, o número e o ódio ainda mantinham temíveis, perigosos e violentos.

Assim que a guarda avançada do II Corpo chegou à distância de tiro, os defensores romperam com um fogo nutrido que dizimou o pelotão da frente e fez recuar, surpreendidos, os que se lhe seguiam.

 

«Para chegar à Ponte era necessário subir o vale entre um precipício no fundo do qual corre a ribeira, e uma massa de rochas a pique, na base das quais passa o caminho que tinham obstruído com abatizes; por consequência era-se forçado a desfilar, a descoberto, diante dos Portugueses que, entrincheirados por diferentes alturas do outro lado da ribeira, tinham uma enorme vantagem. Por isso os primeiros atiradores recuaram e preveniram o marechal do obstáculo que se tinha encontrado, o que o determinou a vir à frente».

 

Soult, uma vez nas proximidades da ponte, estudou a situação cuidadosamente e encarregou os Generais Loison e Heudelet de montarem e executarem um ataque a fim de tomar à viva força a passagem e as posições portuguesas.

Os dois Generais após uma curta conferência, incumbiram a brigada Graindorges de atacar e assaltar o inimigo, e novamente o Major Dulong carregou à frente de uma força composta pelos atiradores da Guarda de Paris, um batalhão do 15. ° de Infantaria Ligeira e um outro do 32. ° de Infantaria Ligeira.

Após vários assaltos frustrados que se prolongaram ao longo do dia 16, esta força logrou ao fim da tarde conquistar finalmente a passagem e desalojar das posições mais próximas os camponeses, isto a troco de algumas dezenas de mortos que os zagalotes certeiros dos populares e das Ordenanças ali causaram; um dos feridos por uma bala na cabeça, ainda que sem gravidade, foi o próprio Major Dulong Rosnay.

Vencida esta dificuldade, com bastante perda de tempo, pouco descanso tiveram as tropas de Soult para admirar a beleza da paisagem, que Le Noble nos descreve de forma apaixonada, não obstante a posição difícil em que se encontrava o II Corpo.

Com efeito pouco depois de ter sido conquistada a ponte da Misarela o Marechal Soult atravessou para a outra margem e ali, vendo passar os seus homens, aguardava que a guarda da retaguarda chegassem a fim de se integrar novamente na coluna de marcha, no seu lugar, quando vindo lá detrás, subitamente, se ouviu o troar do canhão e forte fuzilaria. Mas demos a palavra a Le Noble, o qual no seguimento da descrição do local e da sua bela paisagem, escreve:

 

«Tinha esta paisagem pitoresca chamado a nossa atenção, quando fomos levados à realidade dos acontecimentos militares, mais pelo assobio das balas, que pelo ruído dos tiros das espingardas que os frades e os habitantes atiravam das alturas ... Sendo a passagem do ponte da Misarela mais estreita que e da Ponte Nova (ou do Saltadouro) houve emassamento ente as duas».

 

Na realidade a largura exígua da Ponte da Misarela agravada pela destruição das suas guardas, dificultava a passagem, com grandes demoras causadas pela resistência das mulas e dos cavalos que se apavoravam com o abismo. É ainda preciso ter em conta o grande alongamento imposto pela vereda que obrigava as tropas a desfilarem em frente por um, facto que levava a que o II Corpo tivesse já a sua testa para lá da Ponte da Misarela enquanto a sua retaguarda se mantinha entre Salamonde e a Ponte do Saltadouro.

A demora na passagem da segunda ponte obrigava a que a coluna tivesse grande parte da sua extensão completamente parada.

Ao ouvir-se na retaguarda o troar da Artilharia e basta fuzilaria, as tropas imobilizadas, sem poderem manobrar para se defenderem, e sentindo-se completamente indefesas caíram no pânico.

Muitos homens, ainda na vereda, procuravam avançar a todo o custo empurrando os camaradas da frente, atropelando-se uns aos outros para chegarem às imediações da Ponte; na sua ânsia de escaparem de uma terrível situação lançavam fora armas e equipamento; os pobres animais famintos ou desferrados eram abatidos ou atirados pelas ravinas, tudo para que se desembaraçasse o caminho e a marcha; muitos homens na Ponte eram atirados ao abismo pelo aperto e pela confusão e aos animais que se recusavam a passar sobre a estreita passagem eram cortados os tendões acima dos boletos ou nos curvilhões.

Soult que tinha passado o rio desejava saber o que se passava na retaguarda para trás da Ponte do Saltadouro; o seu chefe de estado-maior, o General de Brigada Richard enviou para o efeito um Ajudante de Campo ao General Merle, que com a sua divisão vinha em guarda da retaguarda, mas aquele Oficial ao chegar à Ponte não pôde vencer o turbilhão humano dos soldados que em plena desordem procuravam passar, e acabou por ser atirado ao rio.

Foi uma situação terrível, que poderia ter-se transformado numa autêntica catástrofe se a noite próxima não viesse suspender os ataques dos perseguidores.

O ordenador Le Noble, mesmo minimizando o acontecido, conta-nos deste modo o sucedido:

 

«Às mulas e aos cavalos de baste que embaraçavam os homens cortavam-lhos os tendões do curvillião ou atiravam-nos nos precipícios.

Houve desordens e os papéis e bagagens salvas em Penafiel, perderam-se nesta passagem...

Dois esquadrões de cavalaria ligeira e uma brigada da 1.ª divisão saindo de Salamonde para descerem à Ponte (do Saltadouro), foram atacados por oito ou dez mil homens de infantaria, com artilharia, que tinham chegado em duas colunas, pela estrada de Braga e pela de Basto.

A dificuldade em formar e a obscuridade deram lugar a algumas desordens; uns trinta cavaleiros caíram com os seus cavalos no precipício, sem que os pudessem salvar».

 

Outro combatente francês descreve-nos assim esta ocorrência:

 

«Tinha-se à retaguarda um excelente regimento de infantaria ligeira (o 4.º de Infantaria Ligeira, um dos melhores do Exército Francês, segundo Oman), o qual, dada a natureza do terreno, poderia facilmente conter um exército inteiro: pois bem, à vista do inimigo debandou sem que o pudessem convencer a ficar.

A confusão que resultou deste pânico estarrecido foi espantosa.

Infantes e cavaleiros precipitavam-se uns sobre os outros, atiravam fora as suas armas e lutavam para conseguir correr mais depressa.

A ponte estreita e sem parapeitos não podia satisfazer a impaciência dos fugitivos, que se empurravam de tal modo que um grande número de homens foram precipitados e afogados na torrente, ou esmagados sob as patas dos cavalos.

Se os Ingleses estivessem em estado de aproveitar este terror, não sei em verdade o que nos teria acontecido, de tal modo o medo é contagioso mesmo entre os mais bravos soldados»

 

Mas a sombra misericordiosa da noite veio pôr fim a este verdadeiro holocausto, e as restantes tropas do II Corpo puderam, mais acalmadas, continuar durante toda a noite a passar a fatídica Ponte da Misarela; Silveira e Wellesley suspenderam as operações de perseguição e ataque retaguarda de Soult.

Quando na manhã seguinte os perseguidores de Soult se aproximaram da Misarela, encontraram um espectáculo que lhes deu a dimensão do terror e da tragédia por que tinham passado os franceses:

 

«O leito rochoso do Cávado (trata-se na verdade do rio Rabagão e não do Cavado, conforme escreve por lapso Lord Munster) apresentava um espectáculo extraordinário.

Homens o cavalos, animais decepados e bagagens, tinham sido despenhados no rio e juncavam literalmente o seu curso.

Aqui, nesta fatal companhia de morte e angústia, foi vomitado o resto do saque do Porto.

Toda a espécie de bons e de valores foram abandonados na estrada, enquanto mais de 300 cavalos boiavam na água e mulas ainda carregadas com bagagens foram içadas pelos granadeiros e pelas companhias ligeiras Guarda; estes desembaraçados e bons rapazes descobriram que pescar caixas e corpos da corrente poderia proporcionar-lhes moedas de prata, e boina ou cintos cheios de moedas de ouro, e, entre cenas de morte e desolação, subiam os seus gritos da mais ruidosa alegria».

 

Estranhas cenas estas, tão antigas como a própria guerra; em que o homem confrontado com o brilho inimitável do ouro se torna insensível, às maiores desgraças e às mais tétricas situações!

 

(continua na próxima quarta-feira)

Vila de Ruivães às 20:25

| deixar comentário
1 comentário:
De Espectador a 20 de Outubro de 2006 às 09:36
Muito boa, ta mesmo muito bom.

Comentar post